quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mãe e Nozes



Mãe. Vozes. Nozes. Quero tanto que grites no fim, que te espasmes nesse teu medo, nesse teu pânico de não a saber mais lá, de não poder mais ser o que vai embora, o que tem vaidades e apetites. Gosto tanto de te sentir, de te ver sentir, sem mais. É difícil, eu sei. Mas faz todo o sentido, mas é verdadeiro. E estamos tão cansados, meu amor. Cansados de não poder criar mais, de não poder mudar tudo a cada segundo. Esta vontade de transformar tudo a cada segundo, este milagre que nós somos um no outro. Mas te digo: é possível, vamos encontrá-la onde ela não existe, essa energia que nos faz continuar, um e outro, um com o outro, um no outro. Amo-te como por vezes nem me consigo amar. É um amor indestrutível. Te digo: venha quem vier, diga o que quiser, que eu estou aqui, de espada na boca, de arma nos olhos. E defender-te-ei até à morte, ainda que não tenhas razão. Só a ti te ralho, só a ti te aconselho, só a ti te digo as verdades. Que aos outros te defendo de espada na mão e arma nos olhos. Até ao fim. Ainda que não tenhas razão. Porque é indestrutível isto que tenho cá dentro e que coloco nas minhas mãos coladas às tuas.

Mãe: ainda procuro. Avidamente, desesperadamente. Às vezes não encontro em mim o que sei que faz falta. Mas, como sabes, não consigo forçar. Mas sei que faz falta, sei que tenho que encontrar. Sabes que estarei lá. Até ao fim, sempre. Tua mãe-menina, meu filho-homem. Porque me lembro de ti sem muito do que te compõe hoje. E tens o coração nas mãos. Não deixes, meu amor, nunca deixes que o tirem de lá. E não mais permitas que te forcem a escondê-lo. Porque é tudo o que tens. E é tão demais que te irão sempre forçar e querer arrancar. Porque é tão simples que se torna miraculoso.

Nozes: não faço ideia do que é, e pela primeira vez só nos sinto. Num ser que não somos, numa procura interminável de rótulos e ideias que possamos defender. Mas não é possível. O que me resta se deixo de ser mulher? O que te resta quando abandonas a tua condição de homem? A ti resta-te um universo feminino, caótico, de ilusão e burlesco. O que me resta a mim? Uma androgenia que não conheço, que me é estranha. E o que fazes com essa “coisa” de ser homem? E o que faço eu com esta coisa de ser mulher? Eu, absolutamente nada. Tu, que fazes? Diz-me, que preciso de saber.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Carta a Carina

Évora, 8 de Maio de 2008

Meu amor, comecei por achar, de uma forma hierárquica relativa ao que sinto na pele, de que te queria escrever sobre a saudade. Percebi que não. Depois veio a ideia da paixão, que rapidamente se transformou dentro de mim num discurso sobre a vontade e o que nos leva ao impulso. Mas – e sabes que eu tenho a mania de “escavar-me” –afinal se sou eu que te escrevo a ti, sobre que mais de quero falar senão de ti e de mim e de nós como uma noz feita de cascas, e labirintos que terminam no miolo, naquilo que nos faz continuar a ter um nós?

Lembro-me do primeiro chá entre conversas, sorrisos, medos e fragilidades de quem se propõe a iniciar uma caminhada que pressente ser o início de si, que me levou a nos dia seguinte dormir lá e as possibilidades complexas, ricas de provocações e tropeços que nos surgem, levaram-nos ao início de uma outra caminhada. Mas esta sabe a tu e eu com intersecções variáveis na dimensão, que se respira, que se toca, que se afasta, que se entende, que se agride. Que o maior medo é que não voltes. Não que não voltes aqui a este lugar do qual decidi não falar alongadamente por ser intrínseco a cada uma de nós, eu e tu, tu e eu. Mas que não voltes a ter aquele único estado em que as pupilas aumentam e os olhos se molham só por estar ali naquele momento. E saber que por mais que me extasie na procura do meu sentido, da minha pele, do meu corpo, do que quero falar, do que me dói, já não volta em mim. Ontem fui ver um documentário sobre a Pina Bausch e ela falava maior força dela ser a saudade. E percebi que é nessa caminhada em busca daquele sentir que nos apercebemos que eles se secam cada vez mais. E quando o reconheces em alguém é tanto tanto tanto cá dentro de querer paralisar, querer dizer-te: vais-te agarrar a qualquer coisa e através dela ir À procura disto. E no entanto, saber que é isso de que somos feitos, de caminhadas, de possibilidades que nos vão delineando. Sabemos que não poderia ser de outra maneira.

Quero escrever-te esta carta porque não tenho uma razão assim especial para o fazer. Aproveito sim para te escrever esta carta e dizer-te que sim. Que te sinto a dor. Que te sinto o aperto, o sufoco. Mas é tanto que só tenho vontade de te arrancar isso de dentro. E obrigar-te a fechar os olhos e descrever cada 5 cm do teu corpo E obrigar-me a fechar os olhos e descrever 5cm do que não consigo ver nem que não tivesse a miopia e o astigmatismo. Mas sei que não posso. Sei sei sei. Sei que estarei aqui ou num outro sítio qualquer, a olhar-te, neste tu e eu e eu e tu que nos define.

Sabes, não tenho conseguido dançar, parece que me põe triste, não sei. Gosto de me respeitar neste sentido, mas Às vezes tenho muito medo. De que a saudade não chegue. De que seja outra coisa qualquer e eu não consiga descobri-la. E sei que tenho que tentar. Mas custa, ando cheia de dores e não me mexo porque tenho medo que ao mexer-me nunca mais me possa mexer. E aqui fico, num candidato a solução cheio de retórica e sem clareza. Mas é sempre um processo. E às vezes é preciso parar, digo eu para mim e a ti que me consolas.

E pronto, não resisto a falar-te um pouco de Évora, no sentido antropológico que a caracteriza: a Rute partiu a rótula À porta de casa em Lisboa, a Bárbara está fazer dieta e vai ao ginásio, o Márcio manda beijinhos e diz para calçares os sapatos vermelhos, e o Rui escreveu-me uma carta a pedir desculpa. De resto, tudo na mesma. Ah, e o Cláudio está cada vez mais rockabilly.

Do meu sopro vai um abraço daqueles nossos, um cappuccino à janela e o resto é só nosso. Um beijo em cada bochecha, um sorriso. Telma.

domingo, 4 de maio de 2008

Começou por ser uma conversa. “Que isto é muito difícil estar
longe dela e com ela também não. Sofro cá sem lá e lá tenho saudade
de cá”, dizia ele. Ela escreveu umas coisas, apontou outras e ficou
assim. Um ano depois tornou-se evidente que tinha que ser. Tinham
que falar da mãe dele. Mas não era o Édipo, não era o Amor,não era
nada disso. Era ele e ela, a mãe dele, numa tentativa desesperada de
viver sem lá mas cá, sempre cá um lado que deseja lá. E decidiram que,
para que isto se tornasse verdadeiro, teriam que partir do que
encontrassem daquilo neles. O que é que dela havia nela e dele havia
nele já fora dele porque em interacção com ela. E, no processo, deixou
de ser ele e e passou a ser ele com e/ou sem ela. Eles amam-se, eles
desejam-se, eles cuidam-se e eles rejeitam-se. Mas esse amor e esse
cuidar é na essência. Nunca, nem que se mate um deles num qualquer
recanto do imaginário do outro, eles deixarão de o fazer. Nem que seja
longe, com limites e castrações. Mas estão lá. E depois surge o medo. E
a aflição. E porque nunca conseguimos segurar nas mãos o coração de
alguém, e porque nunca conseguimos sequer olhar nos olhos de nós,
ficamos ali. Sem sair, sem perceber.
Entretanto surge o outro, aquele que nos fez mudar
muito,aquele que ao criar a música nos fez criar uma relação
inesperada, que nos fez sentir mais perto, mais longe, sós e umbilicais.
E disto tudo nasce o “Projecto Mãe”.