
Mãe. Vozes. Nozes. Quero tanto que grites no fim, que te espasmes nesse teu medo, nesse teu pânico de não a saber mais lá, de não poder mais ser o que vai embora, o que tem vaidades e apetites. Gosto tanto de te sentir, de te ver sentir, sem mais. É difícil, eu sei. Mas faz todo o sentido, mas é verdadeiro. E estamos tão cansados, meu amor. Cansados de não poder criar mais, de não poder mudar tudo a cada segundo. Esta vontade de transformar tudo a cada segundo, este milagre que nós somos um no outro. Mas te digo: é possível, vamos encontrá-la onde ela não existe, essa energia que nos faz continuar, um e outro, um com o outro, um no outro. Amo-te como por vezes nem me consigo amar. É um amor indestrutível. Te digo: venha quem vier, diga o que quiser, que eu estou aqui, de espada na boca, de arma nos olhos. E defender-te-ei até à morte, ainda que não tenhas razão. Só a ti te ralho, só a ti te aconselho, só a ti te digo as verdades. Que aos outros te defendo de espada na mão e arma nos olhos. Até ao fim. Ainda que não tenhas razão. Porque é indestrutível isto que tenho cá dentro e que coloco nas minhas mãos coladas às tuas.
Mãe: ainda procuro. Avidamente, desesperadamente. Às vezes não encontro em mim o que sei que faz falta. Mas, como sabes, não consigo forçar. Mas sei que faz falta, sei que tenho que encontrar. Sabes que estarei lá. Até ao fim, sempre. Tua mãe-menina, meu filho-homem. Porque me lembro de ti sem muito do que te compõe hoje. E tens o coração nas mãos. Não deixes, meu amor, nunca deixes que o tirem de lá. E não mais permitas que te forcem a escondê-lo. Porque é tudo o que tens. E é tão demais que te irão sempre forçar e querer arrancar. Porque é tão simples que se torna miraculoso.
Nozes: não faço ideia do que é, e pela primeira vez só nos sinto. Num ser que não somos, numa procura interminável de rótulos e ideias que possamos defender. Mas não é possível. O que me resta se deixo de ser mulher? O que te resta quando abandonas a tua condição de homem? A ti resta-te um universo feminino, caótico, de ilusão e burlesco. O que me resta a mim? Uma androgenia que não conheço, que me é estranha. E o que fazes com essa “coisa” de ser homem? E o que faço eu com esta coisa de ser mulher? Eu, absolutamente nada. Tu, que fazes? Diz-me, que preciso de saber.


