Évora, 8 de Maio de 2008
Meu amor, comecei por achar, de uma forma hierárquica relativa ao que sinto na pele, de que te queria escrever sobre a saudade. Percebi que não. Depois veio a ideia da paixão, que rapidamente se transformou dentro de mim num discurso sobre a vontade e o que nos leva ao impulso. Mas – e sabes que eu tenho a mania de “escavar-me” –afinal se sou eu que te escrevo a ti, sobre que mais de quero falar senão de ti e de mim e de nós como uma noz feita de cascas, e labirintos que terminam no miolo, naquilo que nos faz continuar a ter um nós?
Lembro-me do primeiro chá entre conversas, sorrisos, medos e fragilidades de quem se propõe a iniciar uma caminhada que pressente ser o início de si, que me levou a nos dia seguinte dormir lá e as possibilidades complexas, ricas de provocações e tropeços que nos surgem, levaram-nos ao início de uma outra caminhada. Mas esta sabe a tu e eu com intersecções variáveis na dimensão, que se respira, que se toca, que se afasta, que se entende, que se agride. Que o maior medo é que não voltes. Não que não voltes aqui a este lugar do qual decidi não falar alongadamente por ser intrínseco a cada uma de nós, eu e tu, tu e eu. Mas que não voltes a ter aquele único estado em que as pupilas aumentam e os olhos se molham só por estar ali naquele momento. E saber que por mais que me extasie na procura do meu sentido, da minha pele, do meu corpo, do que quero falar, do que me dói, já não volta em mim. Ontem fui ver um documentário sobre a Pina Bausch e ela falava maior força dela ser a saudade. E percebi que é nessa caminhada em busca daquele sentir que nos apercebemos que eles se secam cada vez mais. E quando o reconheces em alguém é tanto tanto tanto cá dentro de querer paralisar, querer dizer-te: vais-te agarrar a qualquer coisa e através dela ir À procura disto. E no entanto, saber que é isso de que somos feitos, de caminhadas, de possibilidades que nos vão delineando. Sabemos que não poderia ser de outra maneira.
Quero escrever-te esta carta porque não tenho uma razão assim especial para o fazer. Aproveito sim para te escrever esta carta e dizer-te que sim. Que te sinto a dor. Que te sinto o aperto, o sufoco. Mas é tanto que só tenho vontade de te arrancar isso de dentro. E obrigar-te a fechar os olhos e descrever cada 5 cm do teu corpo E obrigar-me a fechar os olhos e descrever 5cm do que não consigo ver nem que não tivesse a miopia e o astigmatismo. Mas sei que não posso. Sei sei sei. Sei que estarei aqui ou num outro sítio qualquer, a olhar-te, neste tu e eu e eu e tu que nos define.
Sabes, não tenho conseguido dançar, parece que me põe triste, não sei. Gosto de me respeitar neste sentido, mas Às vezes tenho muito medo. De que a saudade não chegue. De que seja outra coisa qualquer e eu não consiga descobri-la. E sei que tenho que tentar. Mas custa, ando cheia de dores e não me mexo porque tenho medo que ao mexer-me nunca mais me possa mexer. E aqui fico, num candidato a solução cheio de retórica e sem clareza. Mas é sempre um processo. E às vezes é preciso parar, digo eu para mim e a ti que me consolas.
E pronto, não resisto a falar-te um pouco de Évora, no sentido antropológico que a caracteriza: a Rute partiu a rótula À porta de casa em Lisboa, a Bárbara está fazer dieta e vai ao ginásio, o Márcio manda beijinhos e diz para calçares os sapatos vermelhos, e o Rui escreveu-me uma carta a pedir desculpa. De resto, tudo na mesma. Ah, e o Cláudio está cada vez mais rockabilly.
Do meu sopro vai um abraço daqueles nossos, um cappuccino à janela e o resto é só nosso. Um beijo em cada bochecha, um sorriso. Telma.